O Ford Kuga é o híbrido plug-in mais vendido da Europa e isso, por si só, já diz muita coisa. Certo?
Lançado em 2020, o Ford Kuga PHEV vem acumulando um desempenho comercial de destaque. Não por acaso, foi o híbrido plug-in mais vendido da Europa em 2021 e 2022 - e, em 2023, segue na liderança.
Esse resultado deixa claro o peso do Kuga na linha europeia da Ford, que continua apostando forte na variedade de motorizações - diesel, gasolina, híbrido plug-in (PHEV) e híbrido convencional (FHEV) - como trunfo para encarar concorrentes mais recentes em um segmento extremamente disputado (C-SUV).
Nos últimos quatro anos, o desenho externo e o ambiente interno mudaram pouco ou quase nada - nos EUA, o “gêmeo” Escape já passou por um restyling que trouxe uma nova dianteira -, mas a configuração avaliada, ST-Line X Black Package, deixa o Kuga com um visual mais chamativo.
Os para-choques exclusivos do ST-Line X e os detalhes em preto do Black Package (principalmente no contraste com a carroceria branca) elevam o apelo esportivo do Kuga. Ainda assim, na minha visão, ele mantém uma identidade mais clássica. Basta comparar com o “irmão” menor, o Puma, que tem um estilo mais jovem e agressivo.
As rodas de 20”, que preenchem bem os arcos, o spoiler traseiro em preto e as pinças de freio vermelhas completam o conjunto.
Interior ainda está atual
Por dentro, chamam atenção os materiais agradáveis ao toque e a boa impressão geral de acabamento, embora as áreas inferiores tragam plásticos mais simples.
Nesta unidade, os bancos com proposta mais esportiva, com costuras vermelhas (presentes também no volante e na parte central do console), se destacam. Além disso, em conjunto com o volante, ajudam a encontrar rapidamente uma posição de dirigir bem acertada.
Na ergonomia, um ponto positivo é a presença de comandos físicos dedicados para o ar-condicionado, muito mais rápidos e práticos do que os “botões” táteis que várias marcas insistem em concentrar dentro do sistema multimídia.
A central multimídia é operada por uma tela sensível ao toque de 8″, que cumpre bem o papel, mas já dá aquela sensação de que um display maior faria falta. Atrás do volante, o painel de instrumentos digital de 12,3” vem de série nas versões ST-Line e ST-Line X.
Se eu tiver de apontar o item do interior que mais denuncia a passagem do tempo, a resposta é imediata: o head-up display.
Já não é comum ver head-up display por lâmina, ainda mais no segmento em que o Kuga compete. Funciona, sem dúvida, mas o carro já pede algo mais moderno.
Espaço que (quase) não acaba
Falar do interior do Kuga sem destacar o espaço disponível é impossível, sobretudo no banco traseiro, que pode deslizar 15 cm para frente ou para trás, “abrindo” ou priorizando espaço conforme a necessidade.
Na segunda fileira, dá para levar três passageiros - desde que quem vai no meio aceite um assento um pouco mais duro e mais alto.
No porta-malas, merece aplauso o fato de o carro trazer de série a tampa com abertura e fechamento elétricos. Ainda assim, a capacidade não é referência no segmento, especialmente nas versões híbridas plug-in, que perdem 64 litros em relação às demais.
Mesmo assim, dependendo da posição do banco traseiro, o volume varia entre 411 l e 581 l, e pode chegar a 1481 l com a segunda fileira rebatida.
Dinâmica: a Ford nunca decepciona
Na configuração híbrida plug-in, o Ford Kuga combina um motor elétrico com um 2,5 l a gasolina de quatro cilindros em linha, que sozinho entrega 152 cv e 200 Nm.
Da combinação, saem 225 cv, enviados às rodas dianteiras por um câmbio de variação contínua (CVT) - justamente o componente de que menos gosto neste SUV da Ford.
O motivo é que fica difícil perceber uma ligação direta entre rotação, som e resposta do motor. Com isso, muitas vezes surge a sensação de que está faltando força, principalmente quando se afunda o acelerador e se espera uma reação imediata.
Em outras palavras, esse CVT faz com que a experiência ao volante nem sempre seja tão progressiva quanto se imagina, além de vir acompanhada do ruído um pouco incômodo, típico desse tipo de transmissão.
No fim, a impressão que fica é clara: o conjunto não foi pensado para “andar forte”, e sim para ser o mais contido possível no consumo.
Chassis impressiona mais do que as performances
O Kuga PHEV chega a 200 km/h de velocidade máxima e faz o sprint de 0 aos 100 km/h em 9,2s. Não são números de impacto, mas estão exatamente dentro do que se espera - e se exige - de um SUV familiar desse tipo.
Até porque, sejamos honestos: mesmo sendo o ST-Line X, o Kuga não carrega obrigação esportiva.
Ainda assim, o comportamento dinâmico surpreende positivamente - e a explicação aparece rápido. A base é a mesma do Focus, que é “só” uma das referências do segmento quando o assunto é dinâmica. Até o acerto de suspensão, com eixo traseiro independente multibraço, é o mesmo que aparece no Focus (nas versões mais completas).
Por isso, o Ford Kuga transmite sensação de carro bem assentado no asfalto, com estabilidade e sem abrir mão do conforto. Mas, por estar com rodas de 20”, dá para esperar uma rodagem mais firme.
Em curvas, o Kuga continua convincente: rolagem de carroceria bem controlada e uma direção - entre as mais precisas do segmento - que deixa a condução em ritmo mais alto mais divertida do que eu antecipava.
Arranque faz-se sempre em modo elétrico
Mesmo assim, é em um uso mais tranquilo que o Kuga parece mais à vontade. A saída acontece sempre em modo elétrico, e o motor a gasolina só entra se a bateria estiver ficando vazia, se o acelerador for acionado de forma mais intensa (ou se passarmos dos 135 km/h).
Só que a razão de existir de um híbrido plug-in é justamente aproveitar o modo 100% elétrico. E, nesse ponto, o Ford Kuga não surpreende, mas também não decepciona.
Quem alimenta o motor elétrico é uma bateria de 14,4 kWh (10,6 kWh úteis), e o Kuga PHEV declara autonomia elétrica (ciclo WLTP) de até 64 km.
Hoje em dia, esse número não causa espanto, mas, ao contrário do que muitas vezes acontece, os dados divulgados pela Ford ficam muito perto do que dá para alcançar no “mundo real”. E isso é uma excelente notícia.
Se seus trajetos diários não passarem dos 50-60 km, o Ford Kuga permite fazer tudo em modo 100% elétrico - desde que a recarga seja diária, claro. É assim que um híbrido plug-in realmente faz sentido.
Mais de 700 km feitos
Quando necessário, dá para usar o motor a gasolina para recarregar a bateria, em um dos quatro modos de funcionamento do sistema híbrido.
Os outros são o modo 100% elétrico, o modo automático (o carro gerencia a alternância entre motor a combustão e elétrico, como em um híbrido convencional) e um modo que mantém a carga preservada para usar mais tarde.
Nos dias em que fiquei com o Ford Kuga PHEV, rodei um total de 734 km e consegui fazer cerca de 55 km em modo 100% elétrico.
Mesmo assim, alternando quase sempre entre o modo de recarga (motor a gasolina carregando a bateria) e o modo automático - e sem parar em nenhum carregador -, terminei este teste com 170 km “elétricos” acumulados. Nada mal.
Sobre consumo, tudo depende do que se exige do sistema. Dá tanto para rodar próximo dos 1,2 l/100 km oficiais quanto para ficar bem acima disso quando não se recarrega com frequência. No meu caso, fechei a avaliação com média de 7,8 l/100 km.
Quanto custa?
Não existe milagre em híbrido plug-in: para ter custo de uso realmente atrativo, é preciso recarregar com frequência. No Kuga PHEV, não é diferente.
Até porque este SUV está longe de ser barato. Na versão ST-Line X, o Ford Kuga PHEV começa em 52 066 euros. Com os opcionais do carro testado, esse valor passa um pouco de 56 000 euros.
Por isso, há rivais fortes que não dá para ignorar, com potência e autonomia elétrica parecidas: Peugeot 3008, Citroën C5 Aircross, Volkswagen Tiguan, entre outros.
Ainda assim, é justo dizer que nenhum dos três modelos citados entrega um comportamento dinâmico tão envolvente quanto este SUV da Ford.
Por outro lado, se a prioridade em um híbrido plug-in for autonomia elétrica, o Toyota RAV4 pode ser uma alternativa interessante. Ele não só entrega mais potência (309 cv), como também mais alcance em modo elétrico (até 75 km), por um preço semelhante ao desta versão do Kuga.
Se estivéssemos em um país com tributação automotiva menos pesada para motorizações de maior cilindrada, como é o caso deste Ford Kuga, a conversa - e o preço! - poderiam ser diferentes.
Basta atravessar a fronteira até a Espanha para ver que este mesmo Kuga PHEV ST-Line X custa cerca de 7200 euros a menos, o que deixa o SUV bem mais competitivo frente aos concorrentes.
E isso ajuda a explicar o sucesso que o Ford Kuga PHEV vem tendo na Europa desde o lançamento.
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