Durante muito tempo, o discurso parecia praticamente encerrado: o futuro do carro seria elétrico - e chegaria mais rápido do que muitos imaginavam. Só que os fatos estão forçando um ajuste de expectativa.
Depois de a Comissão Europeia recuar em parte das ambições para 2035, agora, do outro lado do Atlântico, a Bosch levou ao CES (uma das maiores feiras de tecnologia do mundo) um recado na mesma linha: mesmo em 2035, a maioria dos carros vendidos na América do Norte ainda deve depender de motores de combustão interna.
A projeção foi apresentada por Paul Thomas, presidente da Bosch na América do Norte e principal responsável pela área de mobilidade, durante sua participação no evento. Segundo ele, até 70% dos veículos comercializados nesse mercado ainda terão motores térmicos.
Isso não significa, porém, um retorno aos motores a combustão “puros”. A Bosch deixa claro que não está propondo voltar ao passado. Thomas afirma que esses propulsores devem aparecer combinados com sistemas mild-hybrid, híbridos completos ou soluções de autonomia estendida, em que o motor a combustão atua apenas como gerador (elétricos com extensor de autonomia).
Ainda assim, o número chama atenção por destoar de previsões anteriores. Em 2024, por exemplo, a Bosch indicava uma participação de 40% a 50% de veículos 100% elétricos na América do Norte e na China em 2030.
Por que a adoção de elétricos desacelerou nos EUA
Enquanto o mercado chinês acelerou - e hoje cerca de metade das vendas já é de carros elétricos -, os Estados Unidos vêm reduzindo o ritmo de adoção. Em 2025, a participação ficou abaixo de 8%, com leve queda em relação a 2024.
A guinada de orientação política, com a retirada de incentivos à mobilidade elétrica e o afrouxamento das exigências de eficiência, impactou diretamente o ritmo de entrada dos elétricos: nos EUA, a adoção sofreu uma queda acentuada de 37% no último trimestre do ano. Ao mesmo tempo, o custo das baterias continua sendo um ponto decisivo.
Diante desse cenário, não surpreende que as montadoras norte-americanas tenham revisto planos e redirecionado investimentos antes reservados aos elétricos para modelos híbridos e também para opções exclusivamente a combustão, que oferecem maior rentabilidade.
Bosch vê um mercado mais híbrido do que elétrico
Com esse pano de fundo, a Bosch também escolheu um caminho pragmático. Em vez de concentrar tudo em uma única aposta tecnológica, a empresa mantém investimentos em diferentes frentes: elétricos, híbridos e motores a combustão seguem todos no seu radar.
“Temos sido muito equilibrados na nossa abordagem”, afirmou Paul Thomas, reforçando que a companhia continua colocando recursos no desenvolvimento de motores mais limpos e eficientes. Para a Bosch, interromper essa evolução seria um erro do ponto de vista estratégico.
As projeções mais recentes da empresa são bem mais contidas: uma participação de apenas 30% de veículos totalmente elétricos no mercado norte-americano em 2035 - um nível abaixo do que se esperava alguns anos atrás.
Divergências no setor: a visão da Rivian
Nem todos no setor concordam com esse cenário. A Rivian, por meio do seu diretor-executivo, RJ Scaringe, argumenta que o principal obstáculo não está na demanda, mas na oferta - e defende que, com mais opções e produtos acessíveis, a adoção tende a acelerar.
Já o posicionamento da Bosch ecoa outras leituras comuns entre empresas e analistas: a transição para o carro elétrico deve levar mais tempo, ser mais complexa e seguir um caminho bem menos linear do que se imaginava. Por isso, o motor a combustão continuará tendo um papel relevante.
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