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Telas sensíveis ao toque e segurança ao volante: por que a ANCAP Safety quer a volta dos botões

Carro esportivo elétrico azul exposto em showroom com placa "NO TOUCH" na frente.

Nos últimos anos, a forma como os condutores se relacionam com os automóveis mudou de maneira profunda. Os botões físicos foram, aos poucos, sumindo do painel, enquanto um número crescente de comandos passou a viver dentro de telas sensíveis ao toque.

Telas no painel não são exatamente novidade: elas existem em veículos desde a década de 1980. A diferença é que, nos carros atuais, as funções se acumulam nesses sistemas em um nível muito além do que se via antes - a ponto de o automóvel, muitas vezes, parecer mais um computador sobre rodas.

Esse visual pode transmitir a ideia de modernidade e alta tecnologia. Ainda assim, um conjunto cada vez maior de evidências científicas indica que as telas sensíveis ao toque podem comprometer a nossa segurança.

Um exemplo concreto vem da ANCAP Safety, o programa independente de avaliação de segurança automotiva da Austrália e da Nova Zelândia. A entidade anunciou que, a partir de 2026, passará a pedir às montadoras que "bring back buttons" para comandos importantes do condutor, incluindo faróis e limpadores do para-brisa. Movimentos semelhantes também estão a acontecer na Europa.

A ANCAP Safety vai avaliar de forma explícita se o desenho do veículo favorece uma condução segura, e não apenas o nível de proteção dos ocupantes em caso de colisão - o que significa, na prática, impor limites ao uso de telas para controlar tudo no carro.

O que a pesquisa em fatores humanos diz sobre distração

Décadas de estudos sobre segurança viária mostram que o erro humano está envolvido na grande maioria dos acidentes. E a forma como as interfaces dentro do veículo são desenhadas pode influenciar a frequência com que os condutores cometem erros que afetam a segurança.

Muitos enganos ao volante estão associados à distração. Mas o que, exatamente, é distração - e como ela acontece?

Na pesquisa em fatores humanos, a distração costuma ser classificada como visual, manual, cognitiva ou uma combinação dessas dimensões. Um evento ou estímulo distrator pode tirar os olhos da estrada, as mãos do volante, a mente da tarefa de conduzir - ou tudo isso ao mesmo tempo.

Por isso, enviar mensagens enquanto se dirige é visto como especialmente perigoso: a atividade exige simultaneamente recursos visuais, manuais e cognitivos. Quanto mais “tipos” de atenção uma tarefa requer, maior tende a ser o nível de distração gerado.

Em teoria, navegar por menus em telas sensíveis ao toque pode produzir efeitos parecidos com os de escrever mensagens. Ao ajustar a temperatura do carro por meio de uma barra deslizante no ecrã, o condutor precisa desviar a atenção visual da via e dedicar parte do esforço mental à execução do comando.

Em contraste, um botão giratório físico permite fazer o mesmo ajuste com pouco ou nenhum apoio visual. O retorno tátil e a memória muscular compensam a ausência de informação visual e ajudam a concluir a tarefa mantendo os olhos na estrada.

Afinal, o quanto as funções em telas sensíveis ao toque distraem?

Uma das evidências mais claras e fáceis de entender disponíveis até agora vem de um estudo do Reino Unido, de 2020, conduzido pela TRL, uma empresa independente de pesquisa em transportes.

No trabalho, condutores fizeram percursos simulados em rodovias enquanto realizavam tarefas comuns dentro do carro. Entre elas, escolher música e navegar por menus usando sistemas de tela como Apple CarPlay e Android Auto.

O desempenho foi comparado tanto com a condução sem tarefa secundária quanto com a interação por voz.

Quando os participantes usaram as telas sensíveis ao toque, os tempos de reação aumentaram de forma significativa.

Em velocidade de rodovia, esse atraso de reação equivale a um aumento mensurável na distância de paragem - ou seja, o condutor percorre vários comprimentos adicionais de carro antes de responder a um perigo.

A manutenção na faixa e o desempenho geral de condução também pioraram devido à interação com as telas.

O ponto mais impressionante do estudo é que mexer no touchscreen foi tão distrativo e, em alguns casos, ainda mais distrativo do que escrever mensagens ao volante ou fazer uma ligação com o telemóvel na mão.

Condutores nem sequer gostam de telas sensíveis ao toque

As críticas a projetos centrados em touchscreen não aparecem apenas em experiências de laboratório. Elas também surgem de forma evidente em pesquisas com consumidores no exterior.

Dados de uma pesquisa recente com 92,000 compradores nos Estados Unidos mostram que os sistemas de infotainment - o nome oficial daquela tela no centro do painel - continuam a ser o recurso mais problemático em carros novos.

Segundo a pesquisa, os sistemas de infotainment geram mais reclamações nos primeiros 90 dias de propriedade do que qualquer outro sistema do veículo.

A maior parte das queixas envolve usabilidade. Condutores relatam frustração com comandos básicos que foram transferidos para telas sensíveis ao toque - como luzes, limpadores do para-brisa e temperatura - e que agora exigem várias etapas e atenção visual para serem operados durante a condução.

O reconhecimento de voz pode ser a solução?

Com frequência, o reconhecimento de voz é apresentado como alternativa mais segura às telas, por eliminar a necessidade de desviar o olhar da estrada. No entanto, as evidências sugerem que ele também não é totalmente isento de risco.

Uma grande meta-análise de estudos experimentais avaliou o desempenho de condutores ao usar sistemas de reconhecimento de voz no veículo e no smartphone, reunindo resultados de 43 estudos diferentes.

No conjunto das evidências, a interação por voz piora o desempenho ao volante quando comparada à condução sem qualquer tarefa secundária. Ela aumenta o tempo de reação e afeta negativamente a manutenção de faixa e a deteção de perigos.

Quando os sistemas por voz são comparados com sistemas visuais e manuais, o desempenho tende a ser um pouco melhor com o comando por voz. Mas, apesar de ser menos distrativo do que o touchscreen, o reconhecimento de voz ainda é mensuravelmente mais distrativo do que a condução de referência, em que o condutor não precisa navegar por menus nem alterar configurações.

O regresso dos botões

A evidência é direta: comandos usados com frequência durante a condução - temperatura, velocidade da ventilação, desembaçamento do para-brisa, volume e muitos outros - deveriam continuar a ser táteis.

O condutor não deveria precisar tirar os olhos da via para controlar essas funções. O problema torna-se ainda maior quando esses comandos ficam escondidos em menus em camadas, exigindo vários toques apenas para chegar ao ajuste que se quer mudar.

As telas sensíveis ao toque fazem mais sentido para funções secundárias e definições normalmente ajustadas antes de sair com o carro, como configurar a navegação, escolher média e personalizar o veículo.

A boa notícia é que essa base de evidências está a ser incorporada em programas de avaliação de segurança automotiva. A partir deste ano, a ANCAP Safety e a sua equivalente na União Europeia, a Euro NCAP, vão exigir controles físicos para determinados recursos como condição para atribuir a classificação máxima de segurança a veículos novos.

Cabe às fabricantes decidir se vão cumprir. Ainda assim, algumas montadoras - como Volkswagen e Hyundai - já vêm respondendo a essas exigências e também à pressão dos consumidores para trazer os botões de volta.

Milad Haghani, Professor Associado e Principal Fellow em Risco e Resiliência Urbana, The University of Melbourne

Este artigo é republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.


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